Pressões populares "derrubam" a PEC 37

Pressionada pelas manifestações que tomam as ruas contrárias ao projeto que retirava poderes de investigação do Ministério Público, a Câmara dos Deputados derrubou nesta terça-feira (25) a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37.
A votação faz parte de uma agenda positiva criada pela Câmara para responder aos protestos. Nos últimos dias, a proposta passou a ser uma das principais reivindicações dos grupos populares. Foram 430 votos contrários à medida contra 9 favoráveis e 2 abstenções.
Manifestantes pedem rejeição à PEC 37, que tira o poder de investigação do Ministério Público.
O projeto previa que a condução de inquéritos criminais seria exclusiva das polícias, enquanto caberia aos Ministérios Públicos federal e estaduais apenas apresentar ações na Justiça ou arquivar as investigações.
Os delegados de polícia e os deputados favoráveis à PEC 37 argumentavam que é preciso dividir as funções para coibir abusos, enquanto os membros do Ministério Público e a maioria dos parlamentares considerou que o órgão pode fazer suas próprias investigações.
O impasse gerou uma disputa entre as categorias e chegou a ameaçar o andamento de investigações. Com isso, em abril, a Câmara criou um grupo de trabalho com representantes de policiais, do Ministério Público, do governo e da Casa para trabalhar um texto alternativo. Não houve consenso. O Ministério Público não aceitou apurar de forma extraordinária, só quando tivesse risco para as investigações das policiais.
Sem entendimento, o comando da Casa chegou a anunciar que a votação seria adiada, mas com a mobilização social decidiu engavetar o texto.
Aos gritos de "rejeita, rejeita", centenas de procuradores e promotores acompanharam a votação nas galerias do plenário. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), fez um apelo pela rejeição da proposta porque "o povo brasileiro quer cada vez mais combate à corrupção" e na defesa da ética. "É um ato de unanimidade derrotar essa proposta", afirmou. 

REGRAS

Atualmente, promotores e procuradores de Justiça também fazem investigações próprias, principalmente por meio dos chamados PICs (Procedimentos de Investigação Criminal). Ocorre que esse tipo de investigação não é regulamentada por lei, apenas por regras próprias nos Estados ou regulamentação do Conselho Nacional do Ministério Público.
Para tratar dessa questão, a Câmara deve colocar em votação um projeto que estabeleça normas para as investigações criminais, mas preservando a atuação do Ministério Público.
Como o projeto foi escrito com o apoio da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), PT e PSDB apresentaram textos semelhantes e começaram a disputar a iniciativa. O PT, no entanto, disse que vai propor essa discussão no segundo semestre. A ideia é distencionar o debate e evitar a pressão popular.
O projeto prevê ação conjunta entre polícia e Ministério Público e estabelece ainda que caberá à polícia fazer buscas e apreensões, por exemplo.
Para o presidente da ANPR, Alexandre Camanho, um dos responsáveis pelo projeto, a proposta responde a uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que cobrava uma regra para os PICs, e aos anseios de deputados e da população.
"O projeto simultaneamente regula nossa atuação e contribui para a segurança jurídica em defesa da cidadania", disse Camanho. 
 
Fonte: Folha de S. Paulo. Poder. 25.06.2013

Iraque beneficia China com Petróleo

BAGDÁ - Desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, o Iraque se tornou um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Hoje, a China é seu maior cliente.
A China compra quase a metade do petróleo produzido no Iraque, cerca de 1,5 milhão de barris por dia, e está querendo uma parcela ainda maior, com uma proposta de participação na Exxon Mobil em um dos maiores campos de petróleo do Iraque.
"Os chineses são os maiores beneficiários do boom do petróleo pós-Saddam", disse Denise Natali, especialista em Oriente Médio na Universidade de Defesa Nacional em Washington.
As companhias estatais chinesas levaram centenas de trabalhadores para o Iraque e despejaram no país mais de US$ 2 bilhões por ano. Elas se mostraram dispostas a seguir as regras do novo governo iraquiano e aceitar lucros mais baixos para conseguir contratos.
"Nós perdemos", disse Michael Makovsky, ex-autoridade do Departamento de Defesa dos EUA no governo Bush que trabalhou na política do petróleo no Iraque. "Os chineses não tiveram nada a ver com a guerra, mas, do ponto de vista econômico, eles estão lucrando com ela e nossa Quinta Frota e a força aérea ajudam a garantir seu abastecimento." 
Refinaria de petróleo em Basra, sudeste de Bagdá; do ponto de vista econômico, a China lucrou com a Guerra do Iraque
Refinaria de petróleo em Basra, sudeste de Bagdá; do ponto de vista econômico, a China lucrou com a Guerra do Iraque

No deserto perto da fronteira do Iraque, a China construiu recentemente um aeroporto para levar trabalhadores para os campos de petróleo no sul do país. Há planos de começar em breve voos diretos de Pequim e Xangai para Bagdá. Os executivos chineses impressionam seus anfitriões falando árabe com sotaque iraquiano.
A China aceita as condições do Iraque, o que gera lucros mínimos, porque está mais interessada em energia para alimentar sua economia do que em lucros para enriquecer suas gigantes do petróleo.
As empresas chinesas não têm de responder a acionistas, pagar dividendos ou mesmo gerar lucros. Elas são ferramentas da política de Pequim para garantir o suprimento de energia à sua enorme população.
No final do ano passado, a Corporação Nacional de Petróleo da China fez uma proposta de participação de 60% no campo de petróleo de West Qurna I. A Exxon Mobil resistiu à pressão para vender, e, em março, a companhia chinesa disse que estaria interessada em formar uma parceria com a americana no campo de petróleo.
A produção iraquiana aumentada, grande parte da qual é bombeada por trabalhadores chineses, protegeu a economia mundial de uma alta nos preços do petróleo resultante das sanções ocidentais às exportações do produto pelo Irã.
O interesse da China pelo Iraque também poderá ajudar a estabilizar o país, que enfrenta um grave conflito sectário.
"Do ponto de vista geopolítico, isso desenvolve laços estreitos entre a China e o Iraque, embora a China não se envolva na política", disse David Goldwyn, coordenador do Departamento de Estado para assuntos internacionais de energia no primeiro governo Obama. "Agora que eles estão lá, têm interesse em garantir a continuidade do regime que facilita seu investimento."
A China tornou-se recentemente o maior importador mundial de petróleo. Ela está investindo em campos de petróleo e gás em todo o mundo -US$ 12 bilhões em 2011, segundo o Departamento de Energia dos EUA.
O Iraque estima que seus campos, gasodutos e refinarias precisam de US$ 30 bilhões em investimentos anuais para que o país se torne uma das maiores potências energéticas das próximas décadas.
Mas empresas estrangeiras nem sempre são entusiásticas sobre as condições nacionalistas desfavoráveis do Iraque ou a instável situação de segurança que pode colocar funcionários em perigo. Algumas, como a Statoil da Noruega, deixaram o país ou reduziram suas operações.
Os chineses, frequentemente como sócios de companhias europeias como BP e Turkish Petroleum, ocuparam o vazio.
"Eles oferecem muito capital e disposição para entrar rapidamente e com grande apetite por risco", disse Badhr Jafar, presidente da Crescent Petroleum, companhia independente sediada nos Emirados Árabes Unidos.

TIM ARANGO e CLIFFORD KRAUSS DO "NEW YORK TIMES" 
Fonte: Folha de S. Paulo. Caderno Mundo. 18/06/2013.

Manifestações populares não são novidade

Manifestações populares não são novidade: Relembre sete protestos bem conhecidos que marcaram a história do Brasil.


Em épocas de protestos, manifestações e passeatas, não custa retomar alguns fatos históricos, também relacionados a movimentações populares, que marcaram a política de nosso país e provaram que o povo que vai às ruas tem força e, principalmente, voz. Além de acordar o gigante, às vezes é preciso reavivar a memória desse belo adormecido e, caso você seja uma dessas pessoas que acreditam que é a primeira vez que esse tipo de movimentação acontece, talvez esteja na hora de aprender um pouco mais e rever seu discurso.

A Revolta do Vintém

Vintém era a palavra que denominava a quantidade de 20 réis, e, lutando contra o pagamento de um vintém pelo uso dos bondes no Rio de Janeiro, a população saiu às ruas várias vezes, entre 1878 e 1879. Já àquela época esse tipo de atitude causava conflito entre manifestantes e as forças armadas. Foram muitos os casos de mortos e feridos durante os protestos na então capital do Brasil. Estima-se que 5 mil pessoas tenham saído às ruas, o que fez com que o reajuste da tarifa fosse cancelado.

A Revolta da Vacina

Um Brasil sem condições sanitárias adequadas fazia do começo do século 20 um cenário determinista, propício a doenças diversas — o que foi muito bem descrito no livro “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, ainda que a obra seja do final do século 19.
O sanitarista e chefe da Diretoria da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, garantiu ao então presidente da República Rodrigues Alves que acabaria com os surtos de febre amarela no período de três anos.
A obrigatoriedade da vacinação, medida desconhecida àquela época, e a violência que o governo usou para obrigar a população a se vacinar, invadindo casas e fazendo abordagens violentas, levou 3 mil pessoas às ruas entre os dias 10 e 18 de novembro de 1904. Ao total, 30 manifestantes morreram, 110 ficaram feridos, 1 mil foram presos e centenas deportados.  

Greve da meia-passagem

Definitivamente não é de hoje que a população se revolta. Após presenciar três reajustes no valor da passagem no período de um ano em 1979, mais de 15 mil maranhenses foram às ruas em São Luís no dia 17 de setembro, protestar contra os aumentos abusivos. Em contrapartida, os estudantes, que foram chamados de marginais, depararam-se com forte repressão policial, com um saldo de 50 pessoas feridas e mais de 1.300 detidas.
Apesar da confusão, a lei da meia-passagem foi sancionada no dia 1º de outubro daquele ano, garantindo a redução da tarifa para os estudantes.

Diretas já

Uma das manifestações mais conhecidas ocorreu com a intenção de recuperar o direito de voto direto, abolido durante o Golpe Militar em 1964. A primeira manifestação foi pequena e não teve muita repercussão, no município pernambucano Abreu de Lima, em 1983. Mas os ideais não morreram e fizeram com que o ano seguinte fosse marcado por uma série de grandes manifestações, sendo que a primeira, na capital mineira Belo Horizonte, levou mais de 400 mil pessoas às ruas no dia 24 de fevereiro.
O dia 10 de abril foi marcado no Rio de Janeiro por reunir mais de 1 milhão de pessoas que protestavam a favor do voto direto. No dia 16, foi a vez de São Paulo, que reuniu 1,5 milhão de pessoas. Várias outras cidades brasileiras participaram das passeatas, em dias diferentes, todas contando com muitos manifestantes.
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 5, que previa o retorno das eleições diretas, foi votada no dia 25 de abril de 1984 e, mesmo recebendo 298 votos a favor contra 65 votos desfavoráveis e 3 abstenções, foi invalidada, já que 112 deputados aliados ao regime militar não compareceram.
O então presidente João Figueiredo censurou ainda mais a cobertura da imprensa nacional e houve forte repreensão policial. Apesar disso, o movimento teve grande importância história à luta pela democracia em nosso país e ao fim da repreensão política e da censura imposta pela ditadura militar. A população brasileira voltou a participar de eleições diretas em 1989, após a implementação de uma nova Constituição Federal, no ano anterior.

Impeachment de Collor

Primeiro presidente eleito depois do final da ditadura militar, Fernando Collor de Melo dizia, em suas campanhas, que acabaria com o poder dos marajás e com a corrupção. Porém, dois momentos geraram grande revolta nacional durante o seu governo: o confisco do dinheiro público e o grande esquema de corrupção em parceria com o tesoureiro da campanha presidencial Paulo César Farias. Esse esquema foi denunciado e provado pelo irmão do então presidente, Pedro Collor.
A população saiu às ruas para pedir o afastamento de Collor, no dia 25 de agosto de 1992. Estamos falando agora dos manifestantes que ficaram conhecidos como os “caras pintadas”, que foram 400 mil em São Paulo, 100 mil em Recife, 80 mil em Salvador. Já em setembro, no dia 18, 750 mil pessoas foram para as ruas na grande São Paulo. A renúncia tão esperada ocorreu no dia 29 de dezembro do mesmo ano. Atualmente, Collor é senador de Alagoas.

Marcha dos 100 mil

Esse protesto era contra o governo de Fernando Henrique Cardoso. Os manifestantes pediam que o Governo Federal fosse investigado por meio da abertura de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Estima-se que 100 mil pessoas tenham participado da revolta popular contra a corrupção do governo e o arquivamento indiscriminado de inquéritos, em 1999.

Revolta da Catraca

Tudo começou com o abusivo aumento da tarifa do transporte público na capital de Santa Catarina, Florianópolis, quando em junho de 2004 foi aprovado o aumento de 15,6% do valor da tarifa. A população, que já estava descontente com a qualidade do serviço, saiu de casa para protestar o aumento abusivo e fechou, inclusive, a ponte que liga a ilha à região continental da cidade, como forma de protesto. No ano seguinte, um novo reajuste provocou a revolta da população que, dessa vez, foi repreendida pela polícia.
Por Daiana Geremias em 19/06/2013
Fonte:http://www.megacurioso.com.br/historia-e-geografia/36947-manifestacoes-populares-nao-sao-novidade-conheca-algumas-aqui.htm?utm_source=HomePortal&utm_medium=baixaki

Disputa entre índios x proprietários


As manifestações dos proprietários rurais têm o objetivo de deter o processo de demarcação de 81 áreas no país (30 terras delimitadas e 51 declaradas), que somam cerca de 4,7 milhões de hectares.
O Brasil possui hoje 476 terras indígenas --incluindo aí as terras regularizadas, as homologadas e as reservas-- num total de 105,1 milhões de hectares (quase um oitavo do território brasileiro). Essas terras correspondem a 42% das áreas usadas pela agropecuária (251 milhões de hectares, dos quais 172 milhões ocupados pela pecuária e 79 milhões pela agricultura).
A crescente resistência dos proprietários rurais à demarcação das áreas indígenas é uma das razões da diminuição do ritmo de regularização dessas terras --determinada pela Constituição de 1988.
No governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) foram homologadas 145 áreas (41 milhões de hectares); no governo Lula (2003-2010), o total de áreas cai para 84 (18 milhões de hectares); por fim, na gestão Dilma Rousseff, foram homologadas apenas dez áreas (966 mil hectares).
O Brasil tem, segundo o IBGE, 817,9 mil pessoas que se declaram índios por sua cor ou raça. A distribuição das terras é muito desigual.
Entenda como é a demarcação das terras dos índios e os conflitos com os proprietários

Análise: Atraso no processo de demarcação contribui para ocupação indevida

Há grande concentração fundiária em Mato Grosso do Sul: as 74 maiores fazendas têm uma extensão de 2,4 milhões de hectares. Essa área é três vezes maior do que a soma das terras indígenas no Estado (800 mil hectares), incluindo as recentemente identificadas pela Funai, gerando reações ruralistas.
Ações judiciais impedem a posse efetiva dos índios em vários locais. O IBGE conta 77 mil índios no Estado -só o Amazonas tem população indígena maior. Há situações muito graves: a terra de Dourados, com 3,4 mil hectares e mais de 12 mil ocupantes, tem uma concentração demográfica 50 vezes maior do que a média estadual. É onde ocorrem mais suicídios de crianças indígenas e homicídios.
As formas tradicionais de ocupação indígena implicam áreas de maior extensão, mas os índios dispõem de menos que o módulo rural mínimo necessário para a sobrevivência de agricultores familiares. Não há dúvida de quem mais precisa de terra são os índios e que a solução dos conflitos em MS passa por demarcar áreas bem maiores para eles.
Mas o MS tem uma densa malha fundiária privada consolidada, com mais de 84 mil propriedades, com cadeias dominiais que por vezes remontam ao século 19.
A Constituição diz que são nulos títulos em terras indígenas, mas não há dúvida quanto à responsabilidade da União no atraso nas demarcações. Governos federal e estadual contribuíram para titulações indevidas. Ambos têm responsabilidade no conflito. É inevitável que a ampliação da disponibilidade de terra para os índios atinja propriedades privadas, prejudicando portadores de títulos legítimos, obtidos de boa fé. A forma de reduzir injustiças é indenizá-los pelas benfeitorias e também pela terra.
MÁRCIO SANTILLI, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), foi presidente da Funai entre 1995 e 1996 

Fonte: Folha de S. Paulo. Caderno Poder. 16.06.2013

TERRA DE NINGUÉM: área em dispita entre Ceará e Piauí


Uma disputa centenária por terras na divisa entre Piauí e Ceará, em região conhecida como "faixa de Gaza do Nordeste" devido a imprecisões no limite dos Estados, se acirrou após uma pesquisa do IBGE apontar que a maioria dos domicílios está em território cearense.
O governador do Piauí, Wilson Martins (PSB), não aceita o resultado e pede que o STF (Supremo Tribunal Federal) decida a quem pertence a área de quase 3.000 km² -o equivalente a duas cidades de São Paulo-, onde vivem cerca de 10 mil pessoas.
O litígio começou em 1880, quando decreto assinado por dom Pedro 2º formalizou uma troca de terras -o Ceará cedeu parte do litoral e ganhou um pedaço do Piauí.
Em 2011, o Piauí ingressou com a ação no STF. A AGU (Advocacia-Geral da União) assumiu a missão de tentar a conciliação, e a pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) serviria de referência.

PESQUISA

O levantamento, feito em uma área piloto nos municípios de Pedro 2º (PI) e Poranga (CE), apontou que 75% dos domicílios da faixa estão no Ceará. A área foi escolhida por ser a mais conflituosa.
"O IBGE (...) não foi lá. Fez um estudo em casa, no computador. Por isso não aceito os resultados", afirma o governador do Piauí.
Martins defende que o STF considere o decreto de 1880 e uma carta do Exército produzida há 30 anos. Já o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), quer a demarcação com base no estudo do IBGE.
Segundo o procurador do Estado do Piauí João Batista Júnior, o Estado comunicará à AGU e ao STF, no próximo dia 20, que não fará acordo.
No Censo 2010, o IBGE não diz a quem a área pertence. A região se tornou uma espécie de terra sem lei, onde a polícia não atua e prefeituras não investem. Segundo o IBGE, 80% das famílias da área não têm água. Faltam estradas, postos de saúde e escolas.
Em nota, o instituto diz que não fixa limites de municípios e que segue as legislações estaduais.
Pelo lado do Ceará, o procurador-geral, Fernando Oliveira, diz que o governo considera o IBGE uma instituição "séria" e que lamenta a saída do Piauí das negociações.

ABANDONO

Enquanto a situação não se resolve, moradores se queixam de abandono. Prefeitos se justificam dizendo que não podem aplicar recursos fora da área fixada pelo IBGE.
No distrito de Pitombeiras, em Pedro 2º (PI), não há posto de saúde, e moradores gastam R$ 120 para levar os doentes à sede do município. "Ou paga ou o doente morre em casa", diz o comerciante Pedro dos Santos, 51.
No povoado Arraial, em Poranga (CE), o casal José de Castro, 56, e Maria Magalhães, 49, diz que faltam estradas e escolas de qualidade para os sete filhos.
Eles têm opiniões diferentes sobre a "naturalidade". "Quero ser piauiense, mas em casa seria complicado. Teria de delimitar território, pois a mulher quer ser cearense", brinca Castro.
 Fonte: Folha de S. Paulo. Caderno Poder. 16.06.2013

Protesto em SP reúne 65 mil, segundo Datafolha

Os governantes e as lideranças do país precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos nas ruas. Desqualificá-los como ação de baderneiros é grave erro. Dizer que são violentos nada resolve. Justificar a repressão é inútil: não encontra apoio no sentimento da sociedade. As razões se encontram na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro. (Fernando Henrique Cardoso)
Milhares de pessoas se reúnem no Largo da Batata, em São Paulo (Miguel Schincariol/AFP)

RIO DE JANEIRO

Gritando palavras de ordem como "Não é Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia", "não tenho partido" e "abaixa a bandeira", a manifestação contra o reajuste das passagens de ônibus toma praticamente toda a avenida Rio Branco, no centro.
A Polícia Militar estimou em cerca de 40 mil pessoas até as 18h. Os organizadores não fizeram estimativa após o início da caminhada, mas a multidão ocupava, de forma compacta, cerca de 800 metros da avenida Rio Branco. A avenida tem 33 metros de largura. 

CURITIBA

Cerca de 5.000 pessoas, segundo a PM (Polícia Militar), participam de mais um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em Curitiba, iniciado por volta das 18h, no centro da cidade.
A praça Rui Barbosa e ruas próximas estão lotadas. Manifestantes falam na participação de 20 a 30 mil pessoas.
Pelo menos até às 19h, a manifestação seguia pacífica. Ruas foram fechadas para o tráfego pelos participantes, que devem caminhar até a sede da prefeitura, num percurso definido na hora.
A Guarda Municipal e a Polícia Militar acompanham a movimentação à distância.
Em março, a passagem de ônibus em Curitiba subiu cerca de 10%, para R$ 2,85.
A manifestação de hoje reivindica a redução da tarifa para R$ 2,60 (preço anterior) e defende o passe livre para estudantes e a criação de uma empresa pública para gerir o transporte na cidade. 

BELO HORIZONTE

 Cerca de 15 mil manifestantes que marchavam em direção ao Mineirão, em Belo Horizonte, no fim da tarde desta segunda-feira foram parados em um bloqueio da Polícia Militar na avenida Presidente Antonio Carlos, a cerca de 200 metros da entrada da UFMG (Universidade Federal de MG).
Enquanto negociavam um possível avanço com a polícia, alguns manifestantes tentaram furar o bloqueio e foram recebidos por bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Os manifestantes atiraram pedras e incendiaram objetos de plástico retirados de obras, obstruindo a passagem. 

SALVADOR

 Cerca de 10 mil pessoas (segundo dados da Polícia Militar) foram às ruas em Salvador no final da tarde desta segunda-feira (17).
Os motivos para a manifestação vão desde o apoio aos protestos contra o reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo a críticas contra a organização da Copa do Mundo no Brasil.
O ato teve início às 16h45 e ocorre na região do shopping Iguatemi. A PM e a gerência de tráfego acompanham a mobilização, que vai ocorrendo de maneira pacífica e fechando vias de maneira alternada.
O ato foi combinado no sábado e divulgado pelas redes sociais. A maioria dos manifestantes são estudantes. Na quinta (20), dia do primeiro jogo da Copa das Confederações na cidade, haverá novo protesto.
Os principais gritos são "o gigante acordou" e "vem pra rua".

PRESIDENTE DILMA

Em seus primeiros comentários sobre as manifestações pela redução nas tarifas de ônibus e pela melhoria do transporte público, que vêm tomando as ruas de diversas capitais do país desde a semana passada, a presidente Dilma Rousseff disse que as "manifestações pacíficas são legítimas"
"As manifestações pacíficas são legítimas e são próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem", limitou-se a afirmar a presidente, em comunicado divulgado pela ministra da Secretaria da Comunicação Social, Helena Chagas, no início da noite desta segunda-feira (17).
Fonte: FSP  site 17.06.2013

Oriente Médio Vida e Tesouros do Deserto

Desertos do Oriente Médio têm mosteiro histórico e oásis

O deserto da Judeia fica em uma reserva natural, onde cresce o trigo selvagem.
Para enfrentar a trilha, é melhor com tração nas quatro rodas ou montado em um burro, como fazem os beduínos, os nômades que criam cabras e ovelhas nas montanhas. No calor de mais de 35 ºC, os garotos vestem a kafia, o pano usado pelos árabes para cobrir a cabeça.
O guia do Jornal Hoje, Reuven, leva a equipe para conhecer o ponto mais alto, o monte Azazel, de onde é possível ver as águas do Mar Morto, o ponto mais baixo da superfície terrestre. Ele explica que nos últimos três mil anos o pequeno deserto serviu de refúgio e foi cenário de batalhas históricas. Agora, o deserto é usado para exercícios militares e por turistas que querem aventura.
Do alto do penhasco, é possível ver as águas do Rio Kidron, que abastece a cidade de Belém, e uma espetacular construção na encosta da montanha.
Durante muito tempo, o lugar era frequentado por eremitas, pessoas que se afastavam da civilização para viver no deserto, acreditando assim ficar mais perto de Deus. Ali foi construído, 1500 anos atrás, o mosteiro de Mar Saba, que pertence à igreja ortodoxa grega e que hoje é muito visitado por turistas.
Mar Saba é um dos mosteiros habitados há mais tempo no mundo. Na Idade Média, centenas de monges ocupavam as cavernas desse impressionante emaranhado de templos construídos na rocha.
Nabi Mussa é uma mesquita construída pelos muçulmanos no lugar onde o profeta Moisés teria sido enterrado.



Saindo do deserto da Judeia, é preciso seguir por mais de 100 quilômetros pela estrada para chegar ao Negev, um deserto oito vezes maior e também marcado por imensas montanhas e penhascos.
O manancial é conhecido como a fonte de Ein Akev, que representa a sobrevivência para animais que vivem no deserto. Lá, o verde contrasta com a paisagem árida e até a temperatura da água, gelada, é uma agradável surpresa para quem enfrenta o calor sufocante.
Moradores das redondezas aproveitam para dar um mergulho e o guarda ambiental reclama que muita gente deixa a sujeira para trás.
Desde o início dos tempos, o deserto foi habitado por nômades e povos que viviam da caça, da agricultura e do comércio. Na região, chove menos de 200 milímetros por ano.
O guia leva os turistas para conhecer um lugar essencial nessa história: um oásis. Reservas de água que ficam a poucos metros do solo garantem a intensidade do verde.
Na localidade de Ovdad, há um acampamento beduíno, onde vivem Id e sua família. Ele nos conta que os nômades já não têm mais autorização para circular livremente no deserto e hoje mantém residência fixa. A família tira o sustento da criação de animais e do turismo.
O Negev faz fronteira com o Mar Morto. Boiar na água salgada pode ser uma boa ideia depois de passar o dia no deserto. A turista americana diz que a lama tem propriedades regenerativas e, além de tudo, é divertido e relaxante.
Quando chega a noite, não existe lugar melhor que o deserto para observar a lua e a imensidão do céu.

Carlos de Lannoy Jerusalém
Fonte Jornal Hoje. 29.06.2012 

Moradores de rua de SP usam barracas para dormir

Barracas de camping estão associadas a momentos de lazer e aventura, geralmente vivenciados fora dos centros urbanos. Em São Paulo, porém, moradores de rua passaram a adotar o recurso como forma de moradia. A estratégia, usada especialmente contra o frio e a chuva, pode ser facilmente observada nas ruas do centro, onde calçadas, canteiros e praças são tomadas pelas barracas durante a noite.
Moradores de rua usam barracas em São Paulo - Tiago Queiroz/AE
Moradores de rua usam barracas em São Paulo
Tiago Queiroz/AE
Com a mudança de gestão, e sob as ordens do promotor de Justiça Roberto Porto, a Guarda Civil Metropolitana deixou de recolher à força objetos usados pela população de rua, como colchões e cobertores - pelo menos na região central. A nova postura incentivou parte dos moradores a comprar ou trocar barracas entre si, apesar de a prática ser proibida pela Lei de Uso e Ocupação do Solo. Outros ganharam de associações que trabalham no centro. A Prefeitura ressalta, no entanto, que a montagem não está liberada.
Com a fiscalização afrouxada, três barracas surgiram na Praça do Patriarca, a poucos metros do gabinete do prefeito Fernando Haddad (PT). "É para não passar frio", diz Vanderlei Marfil, de 42 anos. O ex-vigilante tem uma barraca azul modelo Nautika Panda 3. Foi comprada por R$ 92. A nota fiscal é guardada com cuidado para "mostrar para os homem", em referência a policiais militares.
A barraca azul de Marfil foi comprada há duas semanas. Antes, ele tinha uma pequena barraca laranja, que foi repassada por R$ 15 a Otílio Pires, de 52 anos, um colega da rua. "Consegui o dinheiro desentupindo ralo fedorento dos bares aqui do centro", conta Pires, que já trabalhou como agente funerário e fiscal de ônibus. Os dois são vizinhos. Montaram suas barracas lado a lado embaixo do "chapéu da Marta", como chamam a marquise construída na praça em 2002 pela então prefeita Marta Suplicy (PT).
Moda. Assim como Marfil e Pires, centenas de moradores de rua aderiram às barracas. Há modelos espalhados pelas Ruas Vergueiro, Direita, Quintino Bocaiuva, Pátio do Colégio e Avenidas São João, 23 de Maio e Sumaré. Alguns moradores viraram vendedores de barraca e propagaram a moda.
É o caso de Ricardo do Espírito Santo, de 28 anos, que vive entre as estações de metrô Vila Mariana e Ana Rosa, na zona sul. Em 2011, ele trabalhou como ajudante-geral na Campus Party, feira de tecnologia e, no fim do evento, ganhou 20 modelos. "O pessoal não sabia o que fazer com tanta barraca", diz, mencionando as moradias provisórias utilizadas para abrigar os participantes. "Fiquei com uma e vendi o resto por R$ 50. Fui eu quem espalhou o costume pelo centro", afirma (leia mais nesta página).
De lá para cá, porém, muitos perderam a barraca em ações da Polícia Militar e da Guarda Civil. Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, ressalta que a repressão policial diminuiu, mas não acabou.
"É por isso que são necessárias outras respostas, outras políticas, como o prometido aluguel social. Não adianta criar vaga em albergue. São 16 mil pessoas nas ruas. Não dá para colocar todo mundo em albergue. Isso é simplista demais."
O advogado Martim de Almeida Sampaio, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, diz que, apesar de o espaço ser público, a Prefeitura não pode tirar do cidadão o direito de buscar proteção, seja contra a chuva, o frio ou mesmo a violência. "É direito fundamental, de preservação à vida. Não dá para combatê-lo sem oferecer nada em troca."

Tiago Queiroz e Adriana Ferraz
Fonte: O Estado de S. Paulo. 09.06.2013

Ahmadinejad deixa a Presidência do Irã

Mahmoud Ahmadinejad chegou à Presidência do Irã projetando a imagem de um homem simples alinhado aos ideais da revolução islâmica.
Após oito anos no cargo, ele sai de cena sob o estigma de ter causado a maior crise interna na história do regime, em meio a acusações de rebeldia ideológica e corrupção.
Traumatizado, o Estado teocrático sinaliza com clareza que o principal objetivo do pleito presidencial na próxima sexta-feira é pavimentar o caminho para a eleição de um candidato que seja o oposto de Ahmadinejad. 
Ahmadinejad, na posse de Nicolás Maduro, em Caracas; se despede da Presidência do Irã após causar crise histórica
Ahmadinejad, na posse de Nicolás Maduro, em Caracas; se despede da Presidência do Irã após causar crise histórica. Foto: Fernando Llano - 19.abr.2013/Associated Press

Os favoritos na disputa são conservadores com perfil discreto que gravitam na órbita do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, detentor da palavra final no regime.
Khamenei aposta que seus homens de confiança, ao contrário do atual presidente, respeitarão a sua autoridade e a doutrina fundada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979.
A mesma expectativa havia norteado a decisão de Khamenei apoiar Ahmadinejad na eleição de 2005. À época, o preferido do líder comandava a Prefeitura de Teerã após ocupar cargos de médio escalão no interior.
Com sua devoção religiosa e roupas de feira, Ahmadinejad era visto como o homem certo para romper com a liberalização moral promovida pelo reformista Mohamad Khatami, um presidente intelectual e cosmopolita.
O prefeito de Teerã fez campanha prometendo levar a então bonança petroleira "até a mesa do povo". Chegou de surpresa no segundo turno, no qual venceu um poderoso ex-presidente.
Graças a fartos subsídios e a uma economia em alta, Ahmadinejad navegou com tranquilidade nos primeiros anos de governo. No plano externo, entretanto, chocou o mundo ao questionar o Holocausto e pregar o fim de Israel.
Cordial sob Khatami, a relação com o Ocidente deteriorou-se abruptamente, minando as negociações sobre o programa nuclear iraniano. Ahmadinejad priorizou contatos com governos na África e na América Latina, inclusive com o Brasil na era Lula.
A primeira rusga com o líder supremo surgiu em 2008, por intermédio do principal assessor presidencial, Esfandiar Rahim Mashaee.
Num evento público, Mashaee disse que israelenses e americanos eram "amigos" do Irã e os EUA, um dos "melhores países do mundo".
Veterano da inteligência, Mashaee casou sua filha com o primogênito de Ahmadinejad naquele mesmo ano.
Apesar do incômodo, Khamenei chancelou a reeleição de Ahmadinejad em 2009 e declarou ilegais manifestações contra supostas fraudes.
Mas Khamenei se opôs à decisão de Ahmadinejad escolher Mashaee como seu primeiro vice-presidente.

GREVE PRESIDENCIAL

Foi o primeiro de uma série de embates acerca de nomeações para altos cargos no regime. Quando o líder supremo forçou o presidente a reintegrar um ministro da Inteligência demitido, Ahmadinejad ficou dez dias sem trabalhar.
Destoando do primeiro mandato, o clã presidencial adotou uma agenda mais liberal, pregando afrouxamento das restrições morais e exaltando a cultura persa pré-islâmica.
Às divergências ideológicas somaram-se acusações de desvios de bilhões de dólares por banqueiros ligados ao presidente e o efeito devastador do acirramento das sanções.
Em 2012, Ahmadinejad foi o primeiro presidente iraniano a ser sabatinado por deputados que o acusaram de incompetência.
O líder interveio para cortar planos de impeachment ao presidente, que teriam agravado a crise.
Mas, para enterrar os inimigos, o regime vetou nesta eleição a candidatura de Mashaee, que teria conseguido votos das classes mais pobres beneficiadas com programas sociais da Presidência.
"Ahmadinejad se preocupou com os mais humildes", diz o taxista Farhad Kharaji, fã declarado.
Já Mohamed Massih Yarahmadi, que é editor de uma revista de arquitetura, se arrepende de ter votado nele em 2009. "Ele descumpriu suas promessas". 

SAMY ADGHIRNI DE TEERà
Fonte: Folha de S. Paulo, Mundo. 09.06.2013.

"Superlua" no dia 23 de junho

Superlua
A Lua cheia de 23 de junho será uma superlua. O evento acontece quando o satélite está no ponto de sua órbita mais próximo da Terra e aparenta ser maior e mais brilhante do que as outras luas cheias do ano. O termo científico para o fenômeno é perigeu lunar.
Segundo o site da Nasa, a Agência Espacial Americana, a Lua segue uma trajetória elíptica em volta da Terra. O ponto mais próximo é chamado de perigeu e se localiza cerca de 50 mil quilômetros mais perto do nosso planeta do que o apogeu (ponto mais distante). Por isso, as luas cheias que acontecem no perigeu parecem ser maiores e mais brilhantes. No entanto, sem instrumentos para medir o diâmetro lunar, a superlua se parece como qualquer outra.
A melhor hora para se observar e registrar o fenômeno é quando a Lua está próxima do horizonte. Nessa situação é possível compará-la com edifícios, árvores ou qualquer outro objeto que sirva como referência.
A proximidade da Lua pode aumentar um pouco as marés, mas a Nasa informou que não há razão para se preocupar: as variações serão de apenas alguns centímetros a mais do que o normal.
 

O fenômeno deixa a Lua maior e mais brilhante e acontece quando o satélite chega ao seu ponto mais próximo da Terra


Um momento propício para se tirar belas fotografias, segundo astrônomos, o melhor momento para observar a Lua é quando ela ainda está perto do horizonte e em contraste com árvores e prédios, ela parecerá ainda maior.

Colaboração de  Fernando Jacomini de Castro
Fonte:NationalGeographicBrasil
Video: euronewspt

Utopia vigiar mais de 16 mil km de fronteira brasileira

Na semana passada, um grupo do exército brasileiro fazia patrulha de barco no rio Acre, na tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru. Os militares pararam uma canoa com ribeirinhos, em busca de pasta de coca ou contrabando. Enquanto eles vistoriavam o barco, o militar boliviano Bento Gonzalez atravessava tranquilamente a pé, por trás dos militares, pelo igarapé que separa o Peru e a Bolívia. Tinha ido ao Peru comprar macarrão.
"Tem documentos?"
"Não, não é preciso. Sempre cruzo para o Peru e para o Brasil sem documentos."
Na fronteira entre as cidades de Bolpebra, na Bolívia, Iñapari, no Peru, e Assis Brasil, no Brasil, não há nenhum marco e nenhuma fiscalização. A única fiscalização ocorre no posto da Receita Federal e Polícia Federal em Assis Brasil --mas, depois das 20h, não tem ninguém trabalhando lá.
"Não temos efetivo suficiente para fazer o turno da noite", justifica o delegado Flávio Henrique de Avelar, da Polícia Federal no Acre. Cerca de 20% da cocaína do mundo é produzida na Bolívia, 42% no Peru e 38% na Colômbia, segundo o Ministério da Defesa. Estima-se que mais de 70% da cocaína consumida no Brasil venha da Bolívia. 
Patrulha fluvial na entrada da cidade que fica na região da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru
Assis Brasil, por onde entram também os refugiados haitianos, é uma boa amostra do desafio que representa patrulhar os 16,8 mil quilômetros de fronteira brasileira. As Forças Armadas iniciaram no dia 18 de maio a Operação Ágata 7, sua maior mobilização desde a Segunda Guerra Mundial --são cerca de 25 mil militares e 10 mil civis de órgãos como a Polícia Federal, espalhados pela fronteira, do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul.
As operações Ágata são parte do Plano Estratégico de Fronteira, cujo objetivo é desenvolver uma ação coordenada entre as Forças Armadas, Polícia Federal, Força Nacional e Polícia Rodoviária Federal nas áreas de fronteira e inibir tráfico e outros crimes durante as três semanas de operação.
A Folha acompanhou quatro missões da operação, no Acre e em Rondônia, perto da fronteira com a Bolívia e o Peru, durante uma semana. Ficou claro que policiar a fronteira do Brasil é uma tarefa muito difícil.
Há acordos entre cidades para estimular a integração das populações nas fronteiras, e muitas vezes não se fiscaliza logo na divisa para não gerar burocracia. Mas a ideia é que a fiscalização ocorra a alguns quilômetros da divisa, e issomuitas vezes não ocorre.
Um bom exemplo é a ponte que liga Puerto Evo Morales, na Bolívia, e Plácido de Castro, no Brasil, onde o tráfego de carros, bicicletas e pedestres é intenso. Brasileiros cruzam a fronteira para comprar nas lojas baratas dos bolivianos, e os bolivianos, para usar serviços como escola e hospital no Brasil. 
Patrulha fluvial no rio Apunam, fronteira natural com a Bolívia; o Exército brasileiro faz a Operação Agata, que tem como objetivo patrulhar os quase 17 mil km de território de fronteira
Não há nenhum tipo de fiscalização. Não há postos da Polícia Federal, nem da Receita Federal. Entra e sai quem quer, levando o que quiser.
O primeiro posto de fiscalização 24 horas fica a 70 quilômetros dali e, antes dele, há estradas de terra que permitem desviar da vistoria.
UTOPIA
No rio Abunã, que separa os dois países, é a mesma coisa. São dezenas de igarapés e estradas de terra. Segundo policiais, passa gente em canoas e batelões levando escondidos cigarros, pasta base de coca e outros produtos contrabandeados. Uma caixa de cigarros, com 500 maços, é comprada por R$ 350 na Bolívia e revendida por R$ 800 no Brasil.
"Dá uma olhada aqui nas margens do rio, não tem nada, qualquer um pode passar; a gente não tem efetivo para estar em todos os lugares", diz o tenente André Lima Costa, 28 anos, comandante do pelotão especial de fronteira de Plácido de Castro, na divisa com a Bolívia. "É uma utopia vigilância 100% da fronteira".
Patrulhar as fronteiras não é atribuição primordial das Forças Armadas. Isso cabe à Polícia Federal. Desde 2010, no entanto, leis complementares dão às Forças Armadas poder de polícia na faixa de 150 quilômetros a partir da fronteira - eles podem fazer policiamento e prender em flagrante. Mas sua ação é apenas complementar à das polícias.
Uma das funções das Forças é ajudar na logística e segurança de civis de agências como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
"Nós apreendemos três tratores, motosserras e equipamentos de madeireiros ilegais", contou o tenente Rogério Andrade de Carvalho, que chefiou um grupo de combate em uma missão na selva da reserva Mapinguari, perto da fronteira com a Bolívia. "Mas nós não estamos aqui nos outros 360 dias do ano."
MADEIRA
O parque Mapinguari, uma reserva ambiental federal, tem 18 mil quilômetros quadrados --quase do tamanho do estado de Sergipe. Mas apenas dois agentes do ICM Bio --William Assunção e Claudineia Lima-- são responsáveis pela fiscalização da reserva inteira. Resultado: quase todo dia sai do parque um caminhão carregado de toras de ipê, cerejeira, jequitibá, cedro ou roxinho, segundo os próprios agentes dizem.
Na cidade de Extrema, ao lado do parque, há apenas 6000 habitantes --e 38 madeireiras. "Como a região depende de madeira e quando fazemos missões isso causa grande impacto, precisamos de apoio do exército", diz Assunção. 
Tenente Rogerio Carvalho (esq.) mostra para o Capitão Cleber Klen, as toras de Roxinho que seu grupo achou na selva no entorno do Parque Nacional do Mapinguari
Em Cruzeiro do Sul, no Acre, há peruanos cruzando a fronteira para "roubar" mogno do parque nacional da Serra do Divisor, segundo agentes.
Grande parte do contrabando e tráfico drogas de maior volume vem pelas estradas, mas faltam equipamentos e tecnologia para o policiamento. No dia 19 de maio, em um bloqueio na BR 364, que liga Porto Velho a Rio Branco, os militares interceptaram um carro com 20 quilos de cocaína.
Mas na missão, que também era parte da Operação Ágata, apreensões eram a exceção. "Nós não temos scanner aqui. Não dá pra saber tudo o que vai dentro dos caminhões", diz o major André de Melo Franco. "A ideia é criar um clima de segurança, não temos a pretensão de pegar tudo."
NOVO SISTEMA
Uma das principais apostas dos militares para tornar o policiamento mais efetivo é o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), um conjunto de radares nas fronteiras cujo valor total deve chegar a R$ 12 bilhões.
A Embraer ganhou a licitação para a primeira fase de implantação do sistema, que prevê o monitoramento de 650 km de fronteira terrestre na faixa que acompanha a divisa do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e com a Bolívia. "Nossa fronteira é muito extensa e os rios, como divisa física, não oferecem nenhum obstáculo, tudo isso facilita a entrada de drogas", diz o general Ubiratan Poty,comandante da 17a brigada de infantaria de selva.
A coca chega dentro de pneus, saltos de sapatos, mochilas, fundo de canoa, porta-malas, motor e pequenas aeronaves. "Mas estamos dando nossas respostas, aumentando o efetivo, criando mais pelotões de fronteiras." 

Existe uma resignação em relação à dificuldade de se policiar uma fronteira tão extensa. "Eles não são bobos, fogem pelas estradas de terra, igarapés; só pegamos mesmo os mais amadores, ou quando temos alguma informação específica sobre entrada de alguém", diz um oficial. "Nem os EUA, que só têm 3100 quilômetros de fronteira com o México, têm todo aquele dinheiro e não têm selva, conseguem evitar que os mexicanos entrem."
Para Daniel Hirata, pesquisador da UFRJ que participa de um estudo de mapeamento das fronteiras brasileiras para o Ministério da Defesa, operações pontuais não resolvem o problema. "É necessário ter um trabalho investigativo na fronteira, reforçar a inteligência, e o desenvolvimento econômico na faixa de fronteira." 

PATRÍCIA CAMPOS MELLO Folha de S. Paulo. Caderno Poder. 02.06.2013